Que a inteligência artificial conte o que somos: Ibero-América

Juan Alejandro Kawabata
Diretor Jurídico da Secretaria-Geral Ibero-Americana,

Os sistemas de inteligência artificial aprendem com o mundo tal como ele está escrito. Eles não o observam, eles o leem. Essa ideia, aparentemente simples, tem consequências profundas. Os modelos não conhecem diretamente nossas sociedades, mas as reconstroem a partir dos dados com os quais foram treinados. Deles depende quais línguas compreendem melhor, quais instituições reconhecem, quais conceitos jurídicos distinguem, quais referências culturais incorporam e quais realidades conseguem interpretar corretamente.

Uma inteligência artificial se parece, nesse sentido, com alguém que tenta compreender um filme vendo apenas uma seleção de fotogramas. Pode reconstruir parte da história se essas imagens forem suficientes e representativas, mas inevitavelmente compreenderá pior aquilo que quase não aparece ou que simplesmente ficou fora da seleção. Com os dados acontece algo semelhante: aquilo que não está suficientemente representado limita a realidade que o sistema é capaz de reconstruir. E existe um risco ainda maior: que essa seleção dependa de poucos atores e acabe projetando sobre sociedades inteiras uma versão parcial de quem elas são, condicionada por prioridades, vieses ou interesses alheios.

Os dados oferecem à Ibero-América um espaço próprio de atuação

O problema adquire uma dimensão estratégica quando observamos quem está construindo esses sistemas atualmente. A capacidade de desenvolver inteligência artificial encontra-se extraordinariamente concentrada e, com ela, também a possibilidade de determinar quais informações são incorporadas, quais línguas recebem maior atenção e quais contextos servem de referência.

Segundo o relatório preliminar do Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial das Nações Unidas, em 2025 as instituições dos Estados Unidos produziram 59 dos modelos de IA de maior destaque; a China, 35; e todo o restante do mundo, apenas 13. A concentração é ainda maior em capacidade computacional: cerca de 75% da capacidade dos 500 maiores clusters conhecidos encontrava-se nos Estados Unidos e outros 15% na China.

A desvantagem da Ibero-América, portanto, não consiste apenas no fato de termos desenvolvido menos modelos de forma isolada ou de dispormos de menos infraestrutura. O risco também é que as tecnologias que utilizaremos para administrar, educar, pesquisar, aplicar a justiça ou prestar serviços públicos tenham aprendido a interpretar o mundo com muito mais informações sobre outras sociedades do que sobre as nossas.

É justamente por isso que os dados oferecem à região um espaço próprio de atuação.

Dificilmente a Ibero-América poderá modificar, no curto prazo, a distribuição mundial de semicondutores, grandes infraestruturas computacionais ou capital de investimento. Mas mantém uma capacidade muito maior sobre outro tipo de recurso: as informações geradas diariamente por suas sociedades e instituições.

Ninguém pode produzir de fora, com a mesma profundidade, o conhecimento gerado pelo funcionamento cotidiano de uma administração brasileira, de um processo judicial espanhol, de um serviço público uruguaio ou de uma instituição educacional hondurenha. Tampouco pode reproduzir plenamente nossas variantes linguísticas, nossos marcos jurídicos ou a diversidade cultural que permeia os vinte e dois países ibero-americanos.

Boa parte dos grandes corpus utilizados para treinar os modelos atuais já foi coletada ao longo de anos na web aberta. Sobre esse ponto de partida, temos uma margem de atuação reduzida. Mas a próxima fase abre uma oportunidade diferente, que passa por adaptar os modelos a contextos concretos, especializá-los e utilizá-los com informações produzidas pelas próprias organizações no exercício de suas funções.

É aí que os Estados recuperam capacidade de decisão e posição soberana.

Posição soberana não significa se fechar dentro das próprias fronteiras, nem produzir internamente cada elo da cadeia, nem dispor, desde o início, de toda a infraestrutura necessária. Significa que um Estado saiba como, por que e por quem são processados os dados gerados por sua população; que possa contar com capacidades próprias ou compartilhadas para intervir com autonomia cada vez maior nesse processo; e que preserve a capacidade de estabelecer regras, exigir garantias e exercer uma supervisão efetiva.

A cooperação ibero-americana pode tornar possível essa posição sem exigir que todos os países façam o mesmo ou disponham das mesmas capacidades. Compartilhamos duas grandes línguas internacionais, vínculos jurídicos e institucionais, décadas de cooperação e um patrimônio social e cultural extraordinariamente amplo. Soma-se a isso uma enorme diversidade que, longe de ser uma dificuldade, constitui uma fonte de conhecimento que deveria fazer parte dos sistemas do futuro.

Trata-se de criar uma arquitetura comum que permita conectar dados, modelos, conhecimento e infraestrutura, preservando a soberania de cada país

Os dados oferecem, além disso, uma vantagem particular para esse esforço comum: podem gerar novo valor sem se esgotar. Sob condições jurídicas e técnicas adequadas, as informações produzidas em um país podem contribuir para o desenvolvimento de soluções úteis em outros sem que quem as gerou deixe de dispor delas. A cooperação também permite estabelecer de forma clara as condições de acesso e uso desses dados: para quais finalidades podem ser utilizados, por quem, sob quais garantias e com quais limites. Cooperar não significa repartir um recurso escasso, mas ampliar o que cada país pode fazer com aquilo que já possui, preservando, ao mesmo tempo, sua capacidade de decidir sobre como esse recurso será utilizado.

Uma Aliança Ibero-Americana que funcione como um comboio

A Ibero-América parte de uma posição de desvantagem que não se explica apenas pelo fato de ter chegado mais tarde. A concentração de investimentos, capacidade computacional, infraestrutura e capacidades tecnológicas nas mãos de poucos atores ampliou uma lacuna que nenhum país da região pode superar sozinho. Ao mesmo tempo, muitas das capacidades que já temos permanecem dispersas. Daí a necessidade de avançar como um comboio: com diferentes pontos fortes e velocidades, mas conectando conhecimentos e recursos para, juntos, ganharmos uma escala que dificilmente alcançaríamos separadamente.

Esse é, precisamente, o sentido da proposta de uma Aliança Ibero-Americana de Inteligência Artificial que se pretende levar à próxima Cúpula Ibero-Americana de Madri. Não para substituir o que cada país já construiu, nem para pretender que a região produza sozinha todos os componentes dessa tecnologia, mas para conectar capacidades que hoje funcionam de maneira dispersa. Criar uma arquitetura comum que permita conectar dados, modelos, conhecimento e infraestrutura, preservando a soberania de cada país.

Porque, nessa corrida, não basta chegar. Também importa chegar com voz própria. Se a inteligência artificial está aprendendo a contar o mundo, a Ibero-América não pode se limitar a aparecer como personagem secundário em uma história escrita por outros. Desta vez, teremos que chegar juntos para contar o que realmente somos.