As supercapacidades da IA baseiam-se na velocidade com que ela processa e cruza enormes volumes de dados que, transformados em informação, apoiam a tomada de decisões em momentos críticos. Desde antecipar uma inundação até localizar os danos de um terremoto em questão de horas, a IA começa a ser incorporada a todas as fases de uma catástrofe: prevenção, resposta e reconstrução.
Saber o ponto em que um rio transbordará, quais populações se encontram na trajetória de um incêndio, quais estradas permanecem transitáveis após um terremoto ou quais edifícios podem voltar a ser ocupados sem riscos determina decisões das quais dependem vidas.
Durante décadas, a tecnologia vem ampliando as capacidades de antecipação por meio de satélites, radares, sensores, drones ou sistemas de informação geográfica, aos quais a inteligência artificial acrescenta agora a capacidade de encontrar relações entre grandes quantidades de dados, transformando-os rapidamente em previsões. Como explica o físico Gustau Camps-Valls, os modelos, uma vez treinados, podem gerar, em milissegundos, mapas de probabilidade de risco de incêndios ou inundações.
O avanço das mudanças climáticas agrava as condições que favorecem os grandes incêndios e pode intensificar as chuvas torrenciais
Não se trata de uma questão menor para a América Latina e o Caribe, a segunda região do mundo mais exposta a fenômenos sísmicos, eruptivos e climáticos, que, entre 2000 e 2022, registrou mais de 1.500 desastres, com mais de 190 milhões de pessoas afetadas. A Península Ibérica tampouco está à margem: as mudanças climáticas agravam as condições que favorecem os grandes incêndios florestais e podem intensificar as chuvas torrenciais que provocam inundações, como ocorreu com a DANA de Valência de 2024.
O Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres (UNDRR) considera que a inteligência artificial reforça os grandes pilares dos sistemas de alerta precoce: conhecimento do risco, detecção e previsão, comunicação dos alertas e preparação para responder.
Indo um passo além, a análise conjunta das aplicações de IA realizada pela UNDRR, pela Organização Meteorológica Mundial, pela União Internacional de Telecomunicações e pela Federação Internacional da Cruz Vermelha chegou à conclusão de que a inteligência artificial é uma tecnologia habilitadora que aumenta a velocidade, a escala e a capacidade de análise e que, colocada a serviço do conhecimento humano, apoia os organismos de prevenção, resgate e reconstrução.
Comprar tempo
A primeira revolução acontece antes que o desastre ocorra. Segundo o relatório mundial da UNDRR sobre sistemas de alerta precoce, a mortalidade relacionada a esses eventos é quase seis vezes menor nos países que contam com sistemas multirriscos mais completos do que naqueles com capacidades limitadas.
Na previsão de inundações, por exemplo, os modelos de inteligência artificial podem combinar registros históricos com dados meteorológicos, imagens de satélite, níveis dos rios e características do terreno para estimar a quantidade de água que circulará, as áreas que poderão ser inundadas e a altura que as águas poderão atingir.
No Brasil, durante as inundações no Rio Grande do Sul em 2024, a nebulosidade impedia a obtenção de uma imagem de satélite suficientemente precisa. Os responsáveis pela emergência também precisavam resolver uma questão crítica: saber se as águas chegariam a um aeroporto que estava sendo utilizado como centro logístico para alimentos, medicamentos, água e outros suprimentos. O Serviço Geológico do Brasil e a Airbus trabalharam em conjunto combinando imagens de radar obtidas quase em tempo real e modelos digitais do terreno, o que permitiu observar até onde a água havia chegado e modelar para onde poderia avançar. Essas informações ajudaram a avaliar se o aeroporto e seus acessos continuariam seguros para as operações de ajuda.
Em Curanilahue, na região chilena do Biobío, onde 93% do território é área florestal, a detecção precoce do fogo é uma prioridade. Em um exemplo de como a preocupação em preservar as áreas verdes acelera a inovação, desde 2024 um sistema de câmeras térmicas e inteligência artificial emite alertas sobre pontos de calor, fumaça e princípios de incêndio, dando às equipes de emergência mais tempo para ativar uma resposta coordenada.
Intervir onde é mais necessário
Quando o desastre ocorre, a pergunta muda. A urgência passa a ser avaliar os danos e decidir onde é mais urgente intervir.
Nas primeiras horas após os terremotos que atingiram a Venezuela em junho passado, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) ativou o RAPIDA, seu sistema de avaliação digital.
O representante residente da organização na Venezuela, Luis Francisco Thais, relata como, em questão de horas, o RAPIDA produziu uma primeira avaliação, combinando imagens de satélite, detecção de danos por meio de inteligência artificial, modelos de intensidade sísmica, bases de dados sobre população e infraestruturas e modelos de engenharia.
As informações resultantes foram posteriormente combinadas com drones, inspeções e informações coletadas em campo, permitindo identificar áreas prioritárias, orientar a remoção de escombros e distinguir os edifícios que podiam ser ocupados daqueles que precisavam de reparos.
Uma cidade destruída não é uma página em branco
Após a emergência, existe uma terceira vida da inteligência artificial aplicada à gestão de desastres.
Philiep Decorte, diretor de emergências da ONU-Habitat (Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos), com uma longa trajetória em gestão de crises, reconstrução urbana e deslocamentos, resume a questão a partir da experiência da organização em diferentes emergências: “Reconstruir não consiste apenas em recuperar edifícios, mas em aplicar essa reconstrução à vida das pessoas e dos bairros. Essa distinção é fundamental”.
Para Decorte, o objetivo final deveria ser evitar que, após a passagem de um desastre natural, “se reconstrua reproduzindo as mesmas condições de vulnerabilidade que existiam anteriormente”, destacando que as mesmas ferramentas que permitem identificar edifícios danificados podem ser posteriormente cruzadas com informações sobre infraestruturas, população, vulnerabilidade social, propriedade da terra ou riscos climáticos para decidir “onde e como reconstruir”.
Um sistema não evacua um território
Um algoritmo pode prever o transbordamento de um rio ou que o risco de incêndio é extremo e indicar as áreas expostas a maior perigo, mas sempre será necessário que alguém transforme essa previsão em um alerta compreensível que chegue até a última comunidade e consiga fazer com que a população confie suficientemente nas instituições para abandonar sua casa.
O relatório Tech4DRR, elaborado pela UNDRR para a América Latina e o Caribe em conjunto com a NASA e outras organizações, insiste nessa ideia: a inteligência artificial e o aprendizado de máquina estão acelerando extraordinariamente a análise de ameaças e os sistemas de alerta, mas a tecnologia, por si só, não resolve o risco de desastres. Sua eficácia depende de como é integrada às realidades sociais, culturais e de infraestrutura de cada território.
Na Ibero-América, a gestão de emergências conta com um novo espaço comum do qual participam 16 países: a Rede Ibero-Americana de Redução do Risco de Desastres e Proteção Civil (RIRRDPC)
Um sistema de alerta extraordinariamente sofisticado é de pouca utilidade para uma comunidade isolada sem conectividade; um mapa perfeito não salva uma pessoa que não dispõe de transporte para evacuar, e um algoritmo treinado com informações insuficientes sobre assentamentos informais pode tornar seus habitantes invisíveis.
O estudo insiste que a verdadeira inovação reside em combinar a inteligência sintética, capaz de analisar situações que uma pessoa levaria dias para processar, e a inteligência humana, que conhece um território, escuta uma comunidade, decide qual risco é aceitável e assume a responsabilidade de agir.
Uma rede para a coordenação ibero-americana
Na Ibero-América, a gestão de emergências conta com um novo espaço comum do qual participam 16 países: a Rede Ibero-Americana de Redução do Risco de Desastres e Proteção Civil (RIRRDPC). Suas bases foram acordadas em março de 2026, em um encontro de autoridades realizado em Antígua, Guatemala, promovido com o apoio da Espanha, da AECID, da FIAP, da CAF e da SEGIB. A rede já foi incorporada à Plataforma Ibero-Americana de Redes e busca conectar as autoridades nacionais para compartilhar conhecimentos, mobilizar recursos e melhorar a antecipação, a resposta e a recuperação diante de desastres. Nela, o uso da IA para atender às emergências poderia fazer a diferença.
Sua primeira reunião constitutiva está prevista para Madri, no programa da XXX Cimeira Ibero-Americana, nos dias 4 e 5 de novembro, quando deverá ser aprovado seu primeiro Plano de Ação, preparado pelos grupos de trabalho sobre governança e prioridades estratégicas.