A SEGIB e o Vaticano defendem uma IA que proteja a dignidade humana

A SEGIB e o Vaticano defendem uma IA que proteja a dignidade humana

A Ibero-América pode ter uma voz própria diante da inteligência artificial: uma posição coletiva e coerente que coloque o bem comum em primeiro lugar, que cuide das pessoas, proteja-as e as coloque no centro, longe da lógica dos grandes blocos. Foi o que defendeu o Secretário-Geral Ibero-Americano, Andrés Allamand, em um diálogo com o cardeal Víctor Manuel Fernández, prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé. O encontro ocorreu em um evento realizado na Universidade de Comillas, intitulado As lições da Carta Encíclica Magnifica Humanitas. Uma IA centrada nas pessoas, no último dia 30 de outubro.

Ambos concordaram que a IA deve proteger a dignidade das pessoas. “A Ibero-América poderia não ser nem águia nem dragão e buscar uma posição coerente e coletiva, na qual cada país promova o bem comum e o conjunto tenha mais peso”, afirmou Allamand, destacando a necessidade de manter neutralidade e autonomia geopolítica em relação às grandes potências em matéria de IA e de consolidar uma identidade própria.

O cardeal Fernández abriu o evento fazendo uma revisão dos grandes eixos da encíclica, cujo subtítulo, Sobre a proteção da essência humana nos tempos da inteligência artificial, defende que a pessoa é insubstituível e exige que a IA sirva a toda a humanidade, e não ao poder de poucos, com regulação, controle humano e prioridade para o trabalho e para as pessoas mais vulneráveis.

Ele lembrou que o documento alerta para o pouco que se sabe sobre o funcionamento real desses sistemas, que “são mais cultivados do que construídos”. “Pedir prudência, controles e, em algumas ocasiões, desaceleração não significa ser contra o progresso, mas exercer um cuidado responsável para com a família humana”, afirmou Fernández.

Diante das correntes pós-humanistas, que consideram a humanidade ultrapassada e propõem substituí-la, a encíclica responde com fatos históricos surgidos em momentos de crise, como a criação das Nações Unidas e da Cruz Vermelha ou a Declaração Universal dos Direitos Humanos. É uma humanidade diversa, que se mostra «magnífica» quando cuida das pessoas e que, segundo a encíclica, «não deve ser substituída nem superada».

«O ser humano prospera por meio de seus limites: a compaixão, a preocupação com a dor do outro. Para eliminar completamente a dor, seria preciso eliminar o amor», afirmou.

Fernández também falou sobre o poder, outra das questões centrais do documento, e alertou para uma «normalização» cultural baseada em mentiras constantes, perda da memória histórica e um «falso realismo político» que apresenta a paz e o diálogo como utopias e a violência como algo inevitável. “O desenvolvimento tecnológico imparável, que favorece aqueles que têm muito poder, nos desafia a olhar para os mais pobres, que correm o risco de se transformar em material descartável”, alertou.

Em um diálogo posterior entre o Prefeito e o Secretário-Geral Ibero-Americano, Allamand destacou que a encíclica marca «um antes e um depois» no debate mundial sobre a IA. “Até a entrada da Igreja nesse debate, havia um duopólio: as empresas, de um lado, e os Estados, de outro. A encíclica protege algo valioso: a dignidade humana”, sustentou.

O Secretário-Geral propôs três pontos fundamentais: proteger as pessoas, fazê-lo por meio de direitos e estabelecer responsabilidades. “Os direitos nascem da dignidade humana e o Estado deve reconhecê-los. Mas isso não basta: o desenvolvimento da IA é tão enorme que é preciso criar direitos específicos. Se novas ameaças forem inventadas, será preciso inventar formas de enfrentá-las”, explicou.

O cardeal, por sua vez, compartilhou essa abordagem e acrescentou uma nuance: além de garantir direitos, é preciso explicar por que as pessoas os têm. Essa reflexão, afirmou, é necessária “para que, daqui a dez anos, as mudanças culturais não mudem tudo”.

Allamand também destacou outro ponto do texto do Vaticano relacionado à paz e à guerra, em um momento em que o mundo vive um dos pontos mais críticos em termos de conflitos e guerras. Diante daqueles que defendem que a ordem internacional funciona melhor quando cada país coloca seus próprios interesses em primeiro lugar, reivindicou o texto de Leão XIV ao falar do valor do multilateralismo e de um mundo no qual os interesses particulares não prevaleçam.

Durante a sessão de perguntas, o cardeal lembrou que a encíclica também aborda as novas formas de escravidão, como o tráfico de pessoas ou as dependências, ligadas ao poder. Allamand alertou que o ambiente das redes sociais “está gerando uma nova escravidão”, na qual não há deliberação nem reflexão, e incentivou o público a ler a encíclica: “Em oposição a um mundo sem tempo, deem a si mesmos essas duas ou três horas”.

O Secretário-Geral vinculou os princípios da encíclica à Carta Ibero-Americana de Princípios e Direitos nos Entornos Digitais, aprovada pelos 22 países na Cúpula de Santo Domingo, em 2023. “A Ibero-América pode gerar uma posição comum alinhada à encíclica, e estamos fazendo isso com a Carta Digital. Há quatro anos trabalhamos para que os países incorporem esse espírito”, afirmou.

Entrevista

Víctor Manuel Fernández: “Os valores incorporados aos sistemas de IA não podem ser definidos por poucos”

Teólogo argentino e Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé.

A primeira encíclica de Leão XIV, Magnifica Humanitas, conecta-se com o cerne de seu tempo ao apontar a que a humanidade está exposta diante de uma tecnologia tão radicalmente disruptiva como a inteligência artificial.

Formado em Matemática, o Papa oferece uma perspectiva científica que acrescenta profundidade à questão crucial de como orientar um avanço que permite delegar essa capacidade constitutiva do ser humano que é o pensamento. O Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé explica, para o Somos Iberoamérica, a mensagem: proteger a dignidade de cada pessoa, cuidar especialmente dos mais vulneráveis e evitar que poucos decidam o futuro de todos.

O fato de Leão XIV ter dedicado sua primeira encíclica à pessoa humana no tempo da inteligência artificial parece conferir a essa transformação um lugar especialmente relevante em seu magistério. O que essa escolha nos diz sobre a magnitude do desafio que a inteligência artificial representa hoje para a sociedade e para a própria Igreja?

É fundamental esta ênfase do subtítulo: “sobre o cuidado da pessoa humana”. Se a inteligência artificial é abordada, entre outros temas, é sob esta perspectiva específica: cuidar da pessoa humana. Por conseguinte, especialmente aqueles que têm responsabilidades importantes e se perguntam sobre o uso e a orientação da inteligência artificial são chamados a se apaixonar, a se obcecar por estas preocupações: como a inteligência artificial poderia ajudar as pessoas concretas, olhando especialmente para os mais frágeis, a viver de acordo com sua imensa dignidade? Como protegê-las diante dos riscos que já podemos prever? E falo de “paixão” porque, se alguém não se apaixona pela dignidade das pessoas, as ideias não bastam para motivar uma dinâmica efetiva.

A encíclica e a Carta Ibero-Americana de Princípios e Direitos nos Entornos Digitais compartilham a preocupação de colocar as pessoas no centro e evitar que a transformação tecnológica aprofunde as desigualdades. Como esses marcos e princípios podem contribuir para que o desenvolvimento da inteligência artificial ajude efetivamente a reduzir as lacunas e a incluir as pessoas e as comunidades?

Evidentemente, quando se fala de “cuidado”, deve-se entendê-lo, antes de tudo, como dirigido aos mais frágeis, àqueles que não podem ou não sabem se defender diante dos avanços descontrolados de diferentes formas de poder. Às vezes, não se compreende a insistência da Igreja nos pobres e nos mais frágeis da sociedade, ou isso é considerado uma questão política ou ideológica. Mas é a opção óbvia de quem afirma acreditar em um Deus que ama infinitamente cada ser humano e, particularmente, de quem afirma acreditar em Cristo, que se fez pobre entre os pobres.

A macroeconomia tem sua lógica, os interesses empresariais têm sua lógica, as finanças têm a sua. Mas aqueles que detêm um poder particular nessas áreas sabem como se defender e, geralmente, acabam em uma boa posição diante das diferentes crises. Que sentido teria para a Igreja fazer uma opção preferencial por eles? Mas acredito que a mesma coisa vale para um político, chamado a buscar o “bem comum” de uma sociedade. Espera-se dos políticos que sejam eficazes na defesa dos mais frágeis, e isso exige, concretamente, trabalhar intensamente e sem mais demora nos marcos legais, procedimentos e intervenções para incluir e cuidar dos mais frágeis neste novo contexto.

A encíclica alerta para a concentração de dados, infraestruturas e capacidade de decisão nas mãos de poucos atores e questiona que os dados fiquem exclusivamente em mãos privadas. É possível compatibilizar os atuais modelos de negócio das grandes plataformas tecnológicas com uma inteligência artificial verdadeiramente centrada na pessoa e orientada para o bem comum? O que teria que mudar para tornar isso possível?

É preciso compreender que estamos falando de um bem social, um bem que deve integrar o bem comum e que, portanto, implica pensar em todos, sem excluir aqueles que pouco contribuem para os resultados econômicos dos mais poderosos. Ou seja, já não estamos falando de um produto destinado ao benefício de algumas empresas, mas de um bem que, ou beneficia a todos, ou acabará criando uma fonte extremamente perigosa de violência e degradação que não beneficiará ninguém.

Pressupõe-se, então, que os valores incorporados aos sistemas de inteligência artificial não podem ser definidos por poucos, mas sim por meio de uma articulação inteligente, orientada pela política, que dê espaço às empresas, às organizações intermediárias da sociedade, às estruturas do Estado etc. A Igreja também pode participar, levando em consideração que sua doutrina social se desenvolve em constante diálogo com a filosofia e as ciências e que possui uma longa experiência de presença nos mais variados contextos locais.