Água: o recurso que pode dividir (ou unir) a nova ordem mundial

Água: o recurso que pode dividir (ou unir) a nova ordem mundial

A mudança climática já não se mede apenas em graus, mas em secas, inundações e conflitos. Na Ibero-América, onde se concentra uma das maiores reservas de água doce do planeta, o desafio é também político, econômico e geoestratégico. Mas, diante do risco de conflito, emerge outra narrativa: a água como pretexto para dialogar, a água como espaço de cooperação.

A água sempre esteve ali. Nos rios que atravessam fronteiras, nos aquíferos subterrâneos, nas chuvas cada vez mais irregulares. Mas agora passou para o primeiro plano. Um relatório encomendado pela SEGIB ao Observatório de La Rábida — atualmente em elaboração e que será apresentado na próxima Cimeira de Chefes de Estado e de Governo em Madri, em novembro — coloca-a no centro da agenda global. Porque a água não é apenas um recurso natural, mas também uma alavanca de poder, fator de risco e oportunidade.

“Estamos num momento em que é preciso falar da água como recurso geoestratégico”, afirma a autora desse texto, a especialista mexicana Judith Domínguez, especialista em segurança hídrica e direito ambiental. “É essencial para a vida, mas também para todas as atividades econômicas. E começa a fazer parte da segurança nacional”.

Ao redor de 75% dos efeitos climáticos estão vinculados a fenômenos hidrológicos

A mudança climática manifesta-se, sobretudo, por meio da água. Inundações mais frequentes, secas mais prolongadas, chuvas mais intensas. Não é apenas uma percepção: cerca de 75% dos impactos climáticos estão ligados a fenômenos hidrológicos. O Programa Mundial de Avaliação dos Recursos Hídricos da UNESCO descreve isto como uma crise sistêmica, na qual a água atua como o principal canal de impacto. A alteração do ciclo hidrológico não só coloca em risco os ecossistemas, como também as economias e os direitos humanos. Cerca de 75% dos efeitos climáticos estão ligados a fenômenos hidrológicos. A alteração do ciclo da água não só coloca em risco os ecossistemas, como também as economias e os direitos humanos.

Os dados reforçam a urgência. Segundo um relatório publicado em 2025 pela The Lancet, a temperatura média na América Latina passou de 23,3 °C (2001-2010) para 23,8 °C (2015-2024), atingindo um recorde de 24,3 °C em 2024. Países como a Bolívia (+2 °C), o México (+1,6 °C) ou o Brasil (+1,2 °C) mostram aumentos sustentados, com extremos ainda mais acentuados. As consequências são claras: secas que já afetam dois terços do território mexicano, cidades costeiras ameaçadas pela elevação do nível do mar e fenômenos extremos cada vez mais imprevisíveis.

Mas a água não é apenas problema. Também faz parte da solução. A UNESCO insiste em integrar a sua gestão às políticas climáticas, desde a adaptação até à mitigação.

O paradoxo ibero-americano: falência hídrica

A Ibero-América concentra 31% da água doce mundial. E, no entanto, avança para uma “falência hídrica”. O paradoxo é claro: abundância em termos absolutos, escassez em termos reais.

O problema não é apenas físico. É também estrutural. A degradação de rios e aquíferos, a perda de geleiras andinos e a sobre-exploração de recursos estão a reduzir a disponibilidade efetiva. A isso se soma uma urbanização acelerada — mais de 80% da população já vive em cidades — que aumenta a procura em contextos de défice hídrico. “Muitas vezes não é que não haja água, é que está mal gerida”, ressalta Domínguez.

Neste contexto, a água deixa de ser um recurso invisível para se tornar um ativo estratégico. O seu controlo, a sua gestão e a sua disponibilidade condicionam a estabilidade econômica e política. “A água é muito sensível: social, política e economicamente. Mexer na água é mexer em tudo”, destaca Domínguez.

Governança: o desafio pendente

Se a água é o recurso-chave, a governança é o ponto fraco. “A crise da água é, em grande medida, uma crise de governança”, lembra Domínguez, em linha com os diagnósticos da UNESCO.

Existe uma lacuna entre o reconhecimento do direito à água e a sua garantia efetiva

As políticas de água e clima nem sempre estão alinhadas, os dados não são partilhados e as decisões são tomadas de forma dispersa. A isso se soma uma lacuna persistente de financiamento. Embora existam fundos climáticos, o seu acesso é complexo e a sua implementação lenta. O resultado é uma lacuna entre o reconhecimento do direito à água e a sua garantia efetiva.

No mapa da crise hídrica, a América Central ocupa uma posição crítica. Elevada exposição a furacões, secas e inundações, combinada com recursos limitados. Para esses territórios, frequentemente castigados por desastres naturais e com baixa capacidade de recuperação, a cooperação regional não é uma opção, mas uma questão de sobrevivência. O Comitê Regional de Recursos Hidráulicos do Sistema de Integração Centro-Americana (CRRH-SICA) trabalha precisamente na coordenação de respostas, na melhoria da informação climática e no fortalecimento das capacidades institucionais.

A água que conecta. As redes que constroem

Mas há outra forma de olhar para a água. Não apenas como fonte de conflito, mas como espaço de encontro. “É um elemento de cooperação, inclusive de comunicação. Isso deve ser muito destacado”, defende Domínguez. “Num contexto de divisão, temos que nos esforçar para posicioná-la como um bem comum.”

A Ibero-América não parte do zero. A SEGIB articula uma rede consolidada de iniciativas em conjunto com programas da AECID. A Conferência de Diretores Ibero-Americanos da Água (CODIA) — a rede técnica que reúne as autoridades hídricas de 22 países da Ibero-América — trabalha em governança e acesso à água; a Rede Ibero-Americana de Escritórios de Mudança Climática (RIOCC) integra a mudança climática no diálogo político ao mais alto nível. Em todos os casos, o diagnóstico é claro: água e clima não podem ser geridos separadamente.

Para além dos diagnósticos e dos conhecidos problemas de governança e financiamento, o futuro relatório de La Rábida (que será apresentado na Cimeira) coloca o foco em iniciativas concretas que demonstram que a cooperação é possível.

Um exemplo do que já funciona é o Desafio da Água Doce, uma iniciativa que propõe a restauração de 300.000 quilómetros de rios e 350 milhões de hectares de zonas húmidas até 2030, integrando conhecimentos indígenas. A Organização dos Estados Americanos (OEA) impulsiona projetos como o Plano Trifinio, que une El Salvador, Guatemala e Honduras na gestão partilhada de bacias. Mais de 30 fundos de água — promovidos pelo setor privado e por organismos como o BID — financiam soluções locais, desde a reflorestação até à gestão de bacias. E, embora 71% das águas superficiais sejam partilhadas, acordos como os da Bacia do Prata ou do rio Pilcomayo mostram que a gestão conjunta é possível.

Continuar lendo