{"id":48005,"date":"2025-09-25T06:56:51","date_gmt":"2025-09-25T06:56:51","guid":{"rendered":"https:\/\/somosiberoamerica.org\/?p=48005"},"modified":"2026-03-06T09:25:33","modified_gmt":"2026-03-06T09:25:33","slug":"ernesto-ottone-a-ia-e-o-reconhecimento-pleno-dos-direitos-culturais-estarao-na-proxima-carta-cultural-ibero-americana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somosiberoamerica.org\/pt-br\/tipo-de-conteudo\/entrevista-pt\/ernesto-ottone-a-ia-e-o-reconhecimento-pleno-dos-direitos-culturais-estarao-na-proxima-carta-cultural-ibero-americana\/","title":{"rendered":"Ernesto Ottone: \u201cA IA e o reconhecimento pleno dos direitos culturais estar\u00e3o na pr\u00f3xima Carta Cultural Ibero-americana\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSou filho do ex\u00edlio\u201d, afirma Ernesto Ottone (Chile, 1972), que desde 2018 \u00e9 Subdiretor-Geral de Cultura da <a href=\"https:\/\/www.unesco.org\/es\">UNESCO<\/a>. Isso significou para o antes ministro de Cultura e ator, passar 18 anos fora de seu pa\u00eds \u201ctentando construir uma identidade\u201d. Essa identidade, que n\u00e3o o nacionalismo, \u00e9 um direito cultural, explica em uma conversa online desde Paris. Fala com entusiasmo dos planos para a&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.unesco.org\/es\/mondiacult\">Mondiacult 2025<\/a>, que se celebra em Barcelona ap\u00f3s sua passagem pelo M\u00e9xico, e do <strong>peso da Ibero-Am\u00e9rica na transforma\u00e7\u00e3o da vis\u00e3o global sobre a cultura<\/strong>. Adverte sobre a import\u00e2ncia de incorpor\u00e1-la como um dos <a href=\"https:\/\/sdgs.un.org\/goals\">Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel<\/a> e deixar de consider\u00e1-la como \u201cum acrescentamento\u201d; e fala sobre a necessidade de apostar por uma \u201ccultura de paz\u201d, entendida como motor de desenvolvimento para sua constru\u00e7\u00e3o. A UNESCO agora est\u00e1 \u201cno meio\u201d dos conflitos, sublinha, supervisionando, catalogando e documentando, aponta. Menciona a Ucr\u00e2nia e a Palestina, mas tamb\u00e9m o Sud\u00e3o, e n\u00e3o se esquece de outros conflitos nos quais n\u00e3o h\u00e1 guerra, nem dos povos origin\u00e1rios e da import\u00e2ncia que atribui, n\u00e3o s\u00f3 ao seu reconhecimento, sen\u00e3o \u00e0 integra\u00e7\u00e3o de sua sabedoria ancestral nas pol\u00edticas de mitiga\u00e7\u00e3o e combate \u00e0 emerg\u00eancia clim\u00e1tica. Ottone \u00e9 realista ao analisar como as mudan\u00e7as de governos incidem nas pol\u00edticas culturais, mas est\u00e1 disposto a manter em sua agenda de prioridades os desafios e oportunidades que a intelig\u00eancia artificial oferece, por exemplo, com as restri\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias que previnam a homogeneiza\u00e7\u00e3o do pensamento \u00fanico que implica o uso de um idioma majorit\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Come\u00e7ou a contagem regressiva para a Mondiacult. Qual foi o papel da regi\u00e3o ibero-americana neste foro em 2022 e como se prepara para 2025?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o quero parecer pretensioso, mas em 2022 depois de 40 anos [desde a primeira Mondiacult], de novo com a presid\u00eancia do M\u00e9xico, a Am\u00e9rica Latina tornou a ter uma voz protagonista dentro do espa\u00e7o global intergovernamental. Como o processo para a Mondiacult \u00e9 feita a partir das consultas regionais, permite ter vozes com prioridades distintas. No \u00faltimo ano, a Ibero-Am\u00e9rica teve dificuldades para se unir por temas pol\u00edticos e vis\u00f5es sobre o que se deseja para o futuro da regi\u00e3o, mas foi alcan\u00e7ada uma vis\u00e3o em consenso. Isso \u00e9 muito interessante, porque permitiu enfatizar certos pontos e lan\u00e7ar uma declara\u00e7\u00e3o que, em 2022, mostrou claramente a for\u00e7a do processo ibero-americano como laborat\u00f3rio de ideias e de busca de solu\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento sustent\u00e1vel.<strong>&nbsp;<\/strong>Em 2025, o formato ser\u00e1 diferente, n\u00e3o haver\u00e1 uma declara\u00e7\u00e3o, fruto de seis meses de trabalho para alcan\u00e7ar o consenso, sen\u00e3o um documento final que pretende ser o esqueleto da discuss\u00e3o futura e <strong>assegurar que a cultura tenha um objetivo independente<\/strong>&nbsp;[dentro dos ODS]. Hoje n\u00e3o existe, e por isso estamos onde estamos. Na Agenda 2030 a cultura \u00e9 mencionada apenas duas vezes. Aqueles que trabalhamos neste \u00e2mbito sabemos disso: seja em financiamento, em mudan\u00e7a clim\u00e1tica ou em crise, a cultura costuma chegar como um acrescentamento, n\u00e3o como parte fundamental do desenvolvimento sustent\u00e1vel das na\u00e7\u00f5es. Esse \u00e9 o grande desafio. Que as duas edi\u00e7\u00f5es recentes da Mondiacult tenham sido feitas no M\u00e9xico e na Espanha demonstra o interesse por esta regi\u00e3o e por um conglomerado de pa\u00edses que compartilham dois idiomas. Tamb\u00e9m demonstra que o <strong>mundo ibero-americano t\u00eam uma voz que continua a\u00ed, latente, e que hoje \u00e9 mais importante do que nunca,&nbsp;<\/strong>quando vemos as grandes divis\u00f5es que foram constru\u00eddas no mundo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <em>Cultura Ibero-Am\u00e9rica<\/em>, um laborat\u00f3rio de ideias e de busca de solu\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento sustent\u00e1vel foi um exemplo<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Poderia nos dar algum detalhe da agenda que deseja fixar, j\u00e1 orientada para 2030?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde que assumi o cargo na UNESCO em 2018, as prioridades n\u00e3o mudaram muito. Com uma grande diferen\u00e7a: o trabalho proposto&nbsp; pela UNESCO e pela Espanha, e fortemente apoiado pelos pa\u00edses ibero-americanos, pode colocar na agenda novos temas que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o novos. Um \u00e9 <strong>cultura e paz<\/strong>, justamente o que mais nos falta neste momento: compreender a cultura como motor de desenvolvimento para a constru\u00e7\u00e3o da paz. O outro \u00e9 <strong>cultura e intelig\u00eancia artificial<\/strong>, um tema que, infelizmente, temos trabalhado apenas em torno da \u00e9tica da intelig\u00eancia artificial. O mundo da cultura est\u00e1 em um espa\u00e7o muito descuidado para afrontar algo que afetar\u00e1 profundamente o modo em que entendemos a cultura e as progress\u00f5es em torno ao desenvolvimento cultural. Diria que isso \u00e9 crucial: ter uma vis\u00e3o antecipadora, inovadora com respeito a certos temas e que estes possam ser discutidos. Algo que a sociedade civil e os ministros de Cultura far\u00e3o na Mondiacult. Poder ter esse di\u00e1logo \u00e9 muito importante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como avan\u00e7a a ambi\u00e7\u00e3o de que a cultura seja reconhecida como um Objetivo de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel independente, e quem tem impulsionado esse reconhecimento a partir da UNESCO??<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante os \u00faltimos sete anos estivemos trabalhando para isso. N\u00e3o foi f\u00e1cil. As mudan\u00e7as em alguns governos que n\u00e3o acreditam no multilateralismo geraram um vi\u00e9s. Acreditam que as discuss\u00f5es em torno da constru\u00e7\u00e3o da nova agenda n\u00e3o deveria ser antecipada, o que \u00e9 absurdo, porque se n\u00e3o se constr\u00f3i com tempo, infelizmente, quando come\u00e7arem as discuss\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas a partir de 2027, j\u00e1 ser\u00e1 muito tarde para incorporar algo que, hoje dia, n\u00e3o est\u00e1 na agenda. Dos 17 Objetivos de Desenvolvimento, n\u00e3o h\u00e1 nenhum que esteja nem sequer perto de ser alcan\u00e7ado. Pode ser que digam: continuemos com o que j\u00e1 temos, para que investir mais? Mas aqui n\u00e3o se trata de investir mais, e sim de reconhecer algo que j\u00e1 est\u00e1 impl\u00edcito, ainda que n\u00e3o esteja mencionado. \u00c9 uma fal\u00e1cia, com os conflitos em todo o mundo que questionam o modelo existente, pensar que podem ser mantidas discuss\u00f5es sem considerar que a <strong>cultura desempenha um papel fundamental tanto no desenvolvimento como na inova\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A UNESCO, historicamente, entrava para construir <em>a posteriori<\/em> de um conflito. Agora estamos no meio: desde que come\u00e7ou a guerra da Ucr\u00e2nia temos um escrit\u00f3rio l\u00e1 que est\u00e1 monitorando o que est\u00e1 acontecendo, que est\u00e1 reconstruindo, que est\u00e1 desenvolvendo os planos para quando terminar esta loucura. E estamos fazendo a mesma coisa na Palestina, trabalhando em Israel, no que se chama a <strong>diplomacia cultural.<\/strong>&nbsp;Desempenha um papel fundamental.&nbsp;<strong>Continuo tendo di\u00e1logos com todos os pa\u00edses<\/strong>. Gostemos ou n\u00e3o gostemos dos regimes que eles t\u00eam, somos o que permite continuar tendo um di\u00e1logo entre as comunidades, que \u00e9 o mais importante. N\u00e3o entre os governos, mas entre as comunidades que compartilham certos valores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nessa linha o senhor advoga pelo conceito de \u201ccultura de paz\u201d, como a cultura pode contribuir \u00e0 resili\u00eancia social e ambiental, especialmente em contextos ainda marcados por conflitos ou deslocamentos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos tr\u00eas ou quatro \u00faltimos anos percebemos que, ao trabalhar em conflitos, h\u00e1 tr\u00eas instrumentos cruciais. Primeiro: o <strong>patrim\u00f4nio imaterial<\/strong>, regido pela conven\u00e7\u00e3o que completa 20 anos, \u00e9 hoje o elo que une comunidades de diferentes pa\u00edses, apesar das fronteiras. \u00c9 o que permite que comunidades deslocadas preservem seus direitos culturais, mesmo quando se encontram em outro territ\u00f3rio. Trata-se de um conceito totalmente novo. Eu sou filho do ex\u00edlio: vivi 18 anos fora e tive de construir uma no\u00e7\u00e3o do meu pa\u00eds, porque as comunidades eram muito fechadas e n\u00e3o conseguiam transmitir \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es a import\u00e2ncia que isso tinha. Hoje, quando trabalhamos nos acampamentos, nos dedicamos para que essas crian\u00e7as, essas mulheres que s\u00e3o mantenedoras do n\u00facleo familiar, possam transmitir, n\u00e3o o nacionalismo, sen\u00e3o o<strong>&nbsp;pertencimento identit\u00e1rio.<\/strong>&nbsp;Isso \u00e9 fundamental para poder sonhar em voltar ao seu pa\u00eds de origem, algum dia, porque caso contr\u00e1rio, sempre ser\u00e1 um estrangeiro onde quer que esteja.&nbsp;O segundo t\u00eam a ver com a&nbsp;<strong>diversidade cultural.<\/strong>&nbsp;Quando falamos do que \u00e9 digital ou da intelig\u00eancia artificial, devemos garantir que haja diversidade, n\u00e3o s\u00f3 de l\u00ednguas, sen\u00e3o tamb\u00e9m integrando o conhecimento ind\u00edgena e as vis\u00f5es de popula\u00e7\u00f5es minorit\u00e1rias. Devemos assegurar a diversidade de express\u00f5es culturais, seja qual for a plataforma, em espa\u00e7o f\u00edsico ou digital.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O terceiro est\u00e1 relacionado ao conceito de comunh\u00e3o de interesses, que diz respeito a bens superiores. Quando come\u00e7amos, h\u00e1 sete anos, o primeiro passo foi assumir e reconhecer que <strong>a cultura \u00e9 um bem comum<\/strong> \u2014 o que se chama de <em>global public good<\/em>. \u00c9 um bem intr\u00ednseco ao ser humano e \u00e0s comunidades. S\u00e3o os indiv\u00edduos das comunidades que possuem direitos culturais. Como h\u00e1 pa\u00edses que t\u00eam dificuldade em reconhec\u00ea-los, tentam reduzi-los ao \u00e2mbito individual. J\u00e1 os pa\u00edses com cosmovis\u00e3o assumem que as comunidades, e n\u00e3o apenas as pessoas, s\u00e3o o centro do desenvolvimento. Por isso, buscamos tamb\u00e9m ampliar o horizonte de pensamento para assegurar uma representa\u00e7\u00e3o o mais diversa poss\u00edvel, inclusive entre nossos Estados membros. E eu acredito que esse \u00e9 o ponto forte da Mondiacult.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">e falamos de restitui\u00e7\u00e3o [de patrim\u00f4nio subtra\u00eddo], nos \u00faltimos anos tamb\u00e9m realizamos encontros e debates entre diretores de museus, governos, comunidades e muse\u00f3grafos, para buscar um espa\u00e7o comum onde j\u00e1 n\u00e3o tratamos apenas do objeto em si, mas sim do direito cultural de uma comunidade de origem de poder acessar o bem que lhe foi subtra\u00eddo. N\u00e3o me refiro a como ele foi retirado, mas a reconhecer que esse objeto possui um valor intr\u00ednseco para a comunidade de origem. Depois entraremos em como se faz esse retorno. Para n\u00f3s, trata-se de direitos culturais e n\u00e3o de tr\u00e1fico il\u00edcito. \u00c9 uma quest\u00e3o identit\u00e1ria. Essa foi a grande mudan\u00e7a. Quando observamos as raz\u00f5es ap\u00f3s os conflitos \u2014 idioma, identidade \u2014 s\u00e3o esses os temas que surgem. J\u00e1 n\u00e3o falamos do territ\u00f3rio, de quem \u00e9 dono do territ\u00f3rio historicamente; falamos que quem \u00e9 dono da identidade \u00e9 quem habita esse territ\u00f3rio. E \u00e9 isso o que est\u00e1 em jogo hoje em dia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Toda pessoa t\u00eam direito a aceder a bens e servi\u00e7os culturais<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>P: Quando falamos de cultura falamos de direitos humanos, desde sua experi\u00eancia, como a cultura pode ser um motor de reconcilia\u00e7\u00e3o e coes\u00e3o social em sociedades diversas e plurais como as ibero-americanas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E. O.&nbsp;<\/strong>Nos \u00faltimos 15 anos, cinco dos dez pa\u00edses da regi\u00e3o reconheceram seus povos ind\u00edgenas como parte origin\u00e1ria. Esse foi um passo enorme. E n\u00e3o falo de pa\u00edses plurinacionais que j\u00e1 reformaram suas constitui\u00e7\u00f5es, sen\u00e3o de outros, inclusive o meu, onde o reconhecimento chegou faz somente 10 anos, na \u00e9poca em que eu era ministro, para integr\u00e1-los \u00e0 hist\u00f3ria n\u00e3o contada. Esse \u00e9 um processo em andamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo t\u00eam a ver com a rela\u00e7\u00e3o com o passado. A Am\u00e9rica Latina viveu entre os anos 60 e final dos 70 rupturas institucionais muito duras. Hoje, o que est\u00e1 em jogo \u00e9 o conceito de democracia. E n\u00e3o me refiro \u00e0 democracia como entidade pol\u00edtica, sen\u00e3o como espa\u00e7o de direitos fundamentais.&nbsp;<strong>O direito cultural, como o senhor assinalava, forma parte dos direitos humanos.&nbsp;<\/strong>Toda pessoa tem direito de acessar bens e servi\u00e7os culturais e de se expressar por meio deles. Quando falamos de liberdade de express\u00e3o ou de imprensa, tamb\u00e9m estamos falando de direitos culturais: n\u00e3o se trata de mandatos separados. \u00c9 por isso que a UNESCO re\u00fane educa\u00e7\u00e3o, cultura, comunica\u00e7\u00e3o e ci\u00eancia em um todo integrado, pois cada um desses elementos comp\u00f5e o patrim\u00f4nio que vamos construindo em nossas sociedades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>P: Muitos dos S\u00edtios do Patrim\u00f4nio Mundial est\u00e3o em terras ind\u00edgenas, como a UNESCO assegura que&nbsp; suas pol\u00edticas de conserva\u00e7\u00e3o respeitem os direitos e modos de vida das comunidades origin\u00e1rias? Quais desafios e oportunidades vislumbra em sua preserva\u00e7\u00e3o desde uma perspectiva de justi\u00e7a cultural?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E. O.&nbsp;<\/strong>\u00c9 uma reflex\u00e3o que come\u00e7ou h\u00e1 muito poucos anos. Para isso criamos o <a href=\"https:\/\/iipfwh.org\/\">F\u00f3rum dos Povos Ind\u00edgenas do Patrim\u00f4nio Mundial<\/a>, que s\u00e3o representantes eleitos por eles, livremente. Um pa\u00eds n\u00e3o pode inscrever um S\u00edtio do Patrim\u00f4nio Mundial sem consultar os povos ind\u00edgenas do territ\u00f3rio no qual se encontra esse bem. Isso j\u00e1 \u00e9 uma mudan\u00e7a radical.&nbsp;<strong>Hoje, a UNESCO incorpora, tanto a ci\u00eancia como os saberes tradicionais, em seus textos<\/strong>; j\u00e1 n\u00e3o se trata s\u00f3 de dados emp\u00edricos. Assim como n\u00f3s integramos certos conhecimentos de preven\u00e7\u00e3o e de mitiga\u00e7\u00e3o do efeito da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, eles fizeram-no h\u00e1 mais de 4.000 anos. Conseguimos incorpor\u00e1-lo no programa&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.unesco.org\/en\/links\">LINKS<\/a>&nbsp;(Local and Indigenous Knowledge Systems). Mas foi e continuar\u00e1 sendo um caminho longo. Durante a Mondiacult apresentaremos uma publica\u00e7\u00e3o com 12 exemplos de povos ind\u00edgenas nos quais existe um lugar que \u00e9 patrim\u00f4nio imaterial e como eles trabalharam isso dentro de suas comunidades e para com o exterior. Desse modo refor\u00e7amos a ideia de que temos muito a aprender destas comunidades que podem nos mostrar caminhos que n\u00e3o exploramos ainda para, n\u00e3o sei se encontrar solu\u00e7\u00f5es, mas ao menos nos dar vias para encontr\u00e1-las, principalmente no que se refere \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica, por exemplo em zonas coralinas ou de desmatamento gigante, ou sobre a mitiga\u00e7\u00e3o do risco de fogo, sobre o qu\u00ea, acabamos de lan\u00e7ar uma publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na Mondiacult apresentaremos 12 exemplos de povos ind\u00edgenas que trabalham com o patrim\u00f4nio imaterial<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>P: Que papel est\u00e3o desempenhando os espa\u00e7os multilaterais como a Mondiacult na cria\u00e7\u00e3o de redes ou coaliz\u00f5es internacionais que promovam sinergias entre patrim\u00f4nio, cultura, inova\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, como por exemplo, o Grupo de Amigos da cultura liderado pelo Brasil e pelos Emirados que foi apresentado na COP28 em Dubai?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E. O. <\/strong>Foi um dos grandes temas nos quais trabalhamos nestes anos. A UNESCO atua como secretariado do <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/cultura\/pt-br\/assuntos\/acoes-internacionais\/grupo-de-amigos-da-acao-climatica\">Grupo de Amigos<\/a> para a A\u00e7\u00e3o Clim\u00e1tica Baseada na Cultura (GFCBCA). Desde o in\u00edcio, o Brasil foi um grande promotor, junto com os Emirados \u00c1rabes Unidos. O come\u00e7o dos trabalhos teve como base a experi\u00eancia do G20, no qual somos <em>knowledge partner<\/em>. Nosso objetivo \u00e9 assegurar uma linha temporal coerente na constru\u00e7\u00e3o de mensagens. Antes, grupos intergovernamentais como o G77+China, a Uni\u00e3o Europeia ou a Uni\u00e3o Africana formulavam suas posi\u00e7\u00f5es de maneira distinta e acabavam caindo em contradi\u00e7\u00f5es sobre temas culturais. Hoje trabalhamos para construir uma narrativa comum. No campo da a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica, a mudan\u00e7a \u00e9 enorme: na primeira COP a cultura sequer existia, nem sequer se mencionava o conhecimento ind\u00edgena. S\u00f3 se falava de ci\u00eancia emp\u00edrica, mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o. <strong>Hoje n\u00e3o aparece um texto da UNESCO sem que se reconhe\u00e7am ci\u00eancia e conhecimento ind\u00edgena ao mesmo n\u00edvel<\/strong>. Isso j\u00e1 n\u00e3o se discute, ambos s\u00e3o essenciais para as solu\u00e7\u00f5es. Foi um trabalho de formiguinha, s\u00f3 poss\u00edvel gra\u00e7as a pa\u00edses l\u00edderes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Posso citar um exemplo: o recife de corais do Belize esteve na Lista do Patrim\u00f4nio em Perigo durante nove anos. H\u00e1 dois anos conseguimos recuper\u00e1-lo com o apoio financeiro internacional e, sobretudo, com os saberes tradicionais do Belize. Hoje est\u00e1 regenerado, j\u00e1 n\u00e3o sofre branqueamento. \u00c9 uma experi\u00eancia inspiradora: um lugar que esteve prestes a ser destru\u00eddo e que, gra\u00e7as ao esfor\u00e7o internacional e \u00e0 vontade pol\u00edtica de um pequeno pa\u00eds, hoje se conserva. Essas solu\u00e7\u00f5es est\u00e3o agora sendo aplicadas em ilhas do Pac\u00edfico e do Caribe que enfrentam o mesmo problema. Isso \u00e9 puro conhecimento ind\u00edgena. Essa \u00e9 a experi\u00eancia mais valiosa que podemos legar \u00e0s futuras gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Qual considera ser o a contribui\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas gra\u00e7as \u00e0s a\u00e7\u00f5es dos Programas ibero-americanos de Coopera\u00e7\u00e3o Cultural?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trabalhamos muito bem com a organiza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m em parceria com certas academias e universidades. A \u00fanica forma de atuar \u00e9 por meio dos organismos regionais, que t\u00eam presen\u00e7a direta nos pa\u00edses. Assim, conseguimos desenvolver linhas espec\u00edficas, unindo a vontade e os esfor\u00e7os pol\u00edticos que mudam a cada quatro, seis ou oito anos, dependendo do pa\u00eds, e que tamb\u00e9m afetam as prioridades definidas. Buscamos articular os Minist\u00e9rios da Educa\u00e7\u00e3o, da Cultura e da Ci\u00eancia em torno de temas priorit\u00e1rios e contar com uma rede de apoio formada por organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, que alimentam e questionam o que est\u00e1 sendo feito no terreno. Sem essas organiza\u00e7\u00f5es regionais, sub-regionais ou intercontinentais, seria muito dif\u00edcil avan\u00e7ar. As redes criadas pela OEI [Organiza\u00e7\u00e3o de Estados Ibero-americanos] ou pela SEGIB [Secretaria-Geral Ibero-americana] permitem construir algo concreto. Caso contr\u00e1rio, a dist\u00e2ncia entre uma decis\u00e3o tomada aqui e sua implementa\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses se tornaria excessivamente complexa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>P: Em uma \u00e9poca de recortes econ\u00f4micos em que a pr\u00f3pria UNESCO se viu afetada, qual \u00e9 o futuro do financiamento ao desenvolvimento cultural?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E. O.<\/strong>&nbsp;Vem a\u00ed um espa\u00e7o restritivo, e o desenvolvimento sustent\u00e1vel n\u00e3o pode existir se n\u00e3o existe um investimento no desenvolvimento cultural das comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>P: Que oportunidades e riscos identifica na interse\u00e7\u00e3o entre a digitaliza\u00e7\u00e3o, a intelig\u00eancia artificial e a prote\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio e a criatividade cultural?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E. O. <\/strong>Sem diversidade de conte\u00fado, caminhamos para a homogeneiza\u00e7\u00e3o. No entanto, h\u00e1 Estados-membros que consideram que esse mercado deveria permanecer totalmente aberto, sem qualquer tipo de regula\u00e7\u00e3o. E \u00e9 claro que nunca se encontrar\u00e1 o termo \u201cregula\u00e7\u00e3o\u201d nos documentos da UNESCO, j\u00e1 que representamos todos os pa\u00edses. O que afirmamos \u00e9 que qualquer discuss\u00e3o deve necessariamente incluir as grandes empresas. Estou aberto a isso, porque s\u00e3o elas que controlam esse tabuleiro. Em segundo lugar: ainda que n\u00e3o se fale de regula\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso estabelecer certos marcos sobre o que pode e o que n\u00e3o pode ser feito, e \u00e9 isso que se denomina \u00e9tica da <strong>intelig\u00eancia artificial<\/strong>. Em terceiro, est\u00e1 o <strong>desafio de como garantir o acesso a essa diversidade de conte\u00fados e de idiomas. <\/strong>O idioma \u00e9 uma forma de pensar: quando \u00e9 exclu\u00eddo, elimina-se uma vis\u00e3o de mundo. E sabemos muito bem que, na hist\u00f3ria, isso j\u00e1 levou a consequ\u00eancias terr\u00edveis. O digital tamb\u00e9m nos permitiu avan\u00e7os enormes. Antes, por exemplo, para fazer invent\u00e1rios de cole\u00e7\u00f5es na \u00c1frica, eram necess\u00e1rios seis anos de trabalho manual; se estourasse uma guerra civil, tudo estaria perdido. Hoje, com um especialista e a tecnologia adequada, isso pode ser feito em duas semanas e com registros digitais permanentes. Com drones ou sat\u00e9lites, podemos documentar a destrui\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio em zonas de conflito \u2014 algo que antes n\u00e3o existia. Na B\u00f3snia, por exemplo, reconstru\u00edmos a ponte de Mostar sem arquivos completos. J\u00e1 agora, ao finalizarmos a reconstru\u00e7\u00e3o de Mosul e de seu minarete Al-Nuri, o trabalho foi muito facilitado gra\u00e7as a esses registros. Isso \u00e9 extraordin\u00e1rio. N\u00e3o reconhecer que a tecnologia, hoje, nos permite acelerar processos e reduzir custos \u00e9 absurdo. E, portanto, n\u00e3o aproveitar essa oportunidade \u00e9 um erro \u2014 essa \u00e9 a verdadeira inova\u00e7\u00e3o. Mas, ao mesmo tempo, \u00e9 preciso estabelecer restri\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, que alguns pa\u00edses ainda n\u00e3o querem reconhecer como importantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em face da Cimeira de Chefes de Estado de 2026 pretende-se renovar a Carta Cultural Ibero-americana. Quais aspectos considera mais importantes para serem considerados?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E.O.<\/strong>\u00a0A <strong>intelig\u00eancia artificial<\/strong> estar\u00e1 na linha de frente. O segundo ponto ser\u00e1 o <strong>reconhecimento pleno dos direitos culturais<\/strong>. Creio que a Carta Cultural Ibero-americana j\u00e1 aborda esse tema, mas n\u00e3o avan\u00e7amos o suficiente. Isso se relaciona com o <strong>reconhecimento de todas as comunidades<\/strong> em nossas sociedades, com suas identidades pr\u00f3prias, sem a pretens\u00e3o de impor uma sobre a outra. Considero que este assunto ainda n\u00e3o foi debatido com a for\u00e7a necess\u00e1ria e, hoje, surge como um dos temas indispens\u00e1veis. Por outro lado, h\u00e1 discuss\u00f5es que repetimos h\u00e1 anos, porque s\u00e3o priorit\u00e1rias, como a <strong>mudan\u00e7a clim\u00e1tica<\/strong>. As evid\u00eancias fazem com que at\u00e9 o mais c\u00e9tico tenha de aceitar que n\u00e3o pode ficar fora dos debates que vir\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cSou filho do ex\u00edlio\u201d, afirma Ernesto Ottone (Chile, 1972), que desde 2018 \u00e9 Subdiretor-Geral de Cultura da UNESCO. 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