{"id":43810,"date":"2023-10-04T21:22:18","date_gmt":"2023-10-04T21:22:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.somosiberoamerica.org\/?p=43810"},"modified":"2026-03-06T11:05:13","modified_gmt":"2026-03-06T11:05:13","slug":"e-a-riqueza-e-nao-a-pobreza-a-que-causa-a-fome","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/somosiberoamerica.org\/pt-br\/tipo-de-conteudo\/entrevista-pt\/e-a-riqueza-e-nao-a-pobreza-a-que-causa-a-fome\/","title":{"rendered":"\u201c\u00c9 a riqueza e n\u00e3o a pobreza a que causa a fome\u201d"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sobre a mesa um mate e um pratinho com queijo e uvas que s\u00e3o uma tenta\u00e7\u00e3o para Tita, a gatinha com nome de tangueira argentina que trepa at\u00e9 o colo de Mart\u00edn Caparr\u00f3s (Buenos Aires, 1957), e rouba-lhe umas car\u00edcias antes de avan\u00e7ar cautelosa at\u00e9 as iguarias. \u201cO que faz? J\u00e1 tomou caf\u00e9. V\u00e3o pensar que voc\u00ea passa fome\u2026\u201d Fome, algo do que sabe o escritor argentino, que explica que sempre achamos que \u00e9 algo que acontece com os outros: a\u00a0<\/span><a href=\"https:\/\/www.fao.org\/3\/cc3859es\/cc3859es.pdf\"><span style=\"font-weight: 400;\">56,5 milh\u00f5es de pessoas<\/span><\/a><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0s\u00f3 na Am\u00e9rica Latina e no Caribe. 800 milh\u00f5es em todo o mundo. Caparr\u00f3s publicou uns 30 livros, dirigiu revistas e ganhou pr\u00eamios, entre eles o Ortega y Gasset de Jornalismo \u00e0 Trajet\u00f3ria profissional em 2023. Sua obra\u00a0<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">A Fome\u00a0<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(Random House, revisado em 2021) \u00e9 uma cr\u00f4nica e um ensaio l\u00facido sobre a maior pandemia do nosso s\u00e9culo.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>O que \u00e9 a fome?<br \/>\n<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Em termos muito b\u00e1sicos \u00e9 n\u00e3o <\/span><b>ter certeza de poder fazer sua pr\u00f3xima refei\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00f3s sabemos que, de algum modo, vamos comer esta noite e amanh\u00e3. Isso n\u00e3o se questiona. Vivemos em um mundo no que damos por certo que o vamos fazer. Pode ser que seja p\u00e3o com queijo ou pode ser que seja lagosta, mas o que vamos comer amanh\u00e3. Quase nenhum de n\u00f3s tem d\u00favidas, no entanto, h\u00e1 bilh\u00f5es de pessoas pelo menos, que n\u00e3o est\u00e3o t\u00eam nenhuma certeza de que v\u00e3o comer amanh\u00e3. V\u00e3o tentar por todos os meios e v\u00e3o ver o que conseguem. Mas talvez sim, talvez n\u00e3o.<\/span><\/p>\n<p><b>D\u00e1-se o paradoxo de que a Am\u00e9rica Latina \u00e9 produtora de alimentos, mas h\u00e1 milh\u00f5es de pessoas que passam fome, por qu\u00ea?<br \/>\n<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Na Am\u00e9rica Latina, h\u00e1 500 anos, as economias e as estruturas pol\u00edticas est\u00e3o baseadas na extra\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria prima. Isso \u00e9 o que temos feito desde as minas de Potos\u00ed at\u00e9 os narcos mexicanos, passando por tudo o que h\u00e1 no meio, seja petr\u00f3leo, cobre, soja, cana-de-a\u00e7\u00facar e tabaco, trigo, carne\u2026 n\u00e3o sempre \u00e9 a mesma coisa, mas \u00e9 extra\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria prima, o que tem uma quantidade de consequ\u00eancias. Uma que \u00e9 curiosa, ainda que seja um pouco lateral, \u00e9 que na Am\u00e9rica Latina, como o que importa \u00e9 ter o controle das fontes de onde s\u00e3o extra\u00eddas essas mat\u00e9rias primas, em vez de o poder econ\u00f4mico definir o poder pol\u00edtico, \u00e9 o poder pol\u00edtico o que define o poder econ\u00f4mico, porque o que esse poder pol\u00edtico tem pode se apoderar dessas fontes de mat\u00e9ria prima. Isso cria uma estrutura distinta na qual o poder pol\u00edtico \u00e9 muito mais decisivo no momento de definir o poder econ\u00f4mico e n\u00e3o, como costumamos pensar. A extra\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria prima, significa que o que se produz n\u00e3o se produz para o consumo, se produz para a exporta\u00e7\u00e3o. No caso da Argentina, por exemplo, se sup\u00f5e que o pa\u00eds produz comida que poderia alimentar 400 milh\u00f5es de pessoas e, no entanto, dos 45 milh\u00f5es que somos, h\u00e1 ao redor de 4 milh\u00f5es que n\u00e3o comem o suficiente. Por que \u00e9 isso que parece um grande paradoxo? Porque se produz para alimentar porcos chineses. N\u00e3o se produz para dar de comer \u00e0s pessoas do pa\u00eds. Essa n\u00e3o \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de alimentos, sen\u00e3o para entrar em um mercado internacional no qual, obviamente, os chineses v\u00e3o pagar mais do que o campon\u00eas ou o morador da comunidade do lado. E isso tamb\u00e9m produz um efeito curioso, bem, curioso, espantoso que \u00e9 que a Am\u00e9rica Latina \u00e9 a regi\u00e3o mais desigual do mundo, n\u00e3o necessariamente a mais pobre, mas sim a mais desigual. E eu penso que isso tem a ver com isto: em um sistema de extra\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria prima<\/span><b> a desigualdade existe porque os ricos podem se permitir isso.<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> N\u00e3o necessitam seus pobres: n\u00e3o os necessitam para trabalhar, porque a extra\u00e7\u00e3o de mat\u00e9ria prima n\u00e3o necessita muita m\u00e3o de obra e, cada vez menos. Tamb\u00e9m n\u00e3o os necessitam para consumir porque n\u00e3o produzem para o mercado interno, sen\u00e3o para a exporta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o necessitam dos pobres para nada, nem para trabalhar nem para consumir. Ent\u00e3o podem se dar ao luxo de desprez\u00e1-los, digamos, e t\u00ea-los mergulhados na pobreza. E eu creio que tem a ver com esta estrutura.<\/span><\/p>\n<p><b>Importa que morram de fome?<br \/>\n<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Importa quando aparece algum caso assim, como dram\u00e1tico, de uma menina em uma prov\u00edncia que dizem que tinha fome e est\u00e1 magrinha e sei l\u00e1. \u00c0s vezes isso chega, n\u00e3o sei, a um programa de televis\u00e3o mais ou menos visto e produz certo efeito. Mas o problema \u00e9 que, em geral, morrer de fome n\u00e3o significa morrer de inani\u00e7\u00e3o. Existe uma confus\u00e3o habitual na que se pensa em morrer de fome como morrer de inani\u00e7\u00e3o; de n\u00e3o comer dez dias seguidos ou vinte dias seguidos. E, em geral, morrer de fome \u00e9 outra coisa. Este homem, por n\u00e3o estar suficientemente alimentado, n\u00e3o tem as defesas necess\u00e1rias para suportar qualquer uma das inumer\u00e1veis doen\u00e7as que um corpo bem nutrido suporta sem nenhum problema. Asim \u00e9 como a gente morre de fome. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1, afortunadamente, estas fomes apocal\u00edpticas, salvo em situa\u00e7\u00f5es de cat\u00e1strofe natural ou de guerra ou de coisas assim. Isso passa despercebido, n\u00e3o consegue produzir nenhum efeito, porque n\u00e3o \u00e9 algo televisado. N\u00e3o <\/span><b>\u00e9 algo que se possa sintetizar em uma imagem, que \u00e9 o que parece que, ultimamente, se necessita para que as coisas continuem.<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>E se conhecemos os dados, se sabemos dessa piora, e do funcionamento do mercado que est\u00e1 prejudicando e agravando o problema da fome, por que n\u00e3o fazemos nada?<br \/>\n<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Eu costumo acreditar que \u00e9 porque<\/span><b>\u00a0[a fome] \u00e9 algo que acontece com os outros.<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0Sempre a outros. Gosto de p\u00f4r o exemplo da ecologia. Lembro-me que faz mil\u00eanios, quando estudava na Fran\u00e7a, na universidade, os ecologistas eram quatro. Ningu\u00e9m prestava aten\u00e7\u00e3o nos anos 70 e gritavam tanto como podiam. Por outro lado, eram outro tipo de ecologistas porque tinham uma consci\u00eancia mais clara de que a ecologia significava tamb\u00e9m uma briga contra o poder e estavam muito menos preocupados pelas centrais nucleares, por contaminar um arroiozinho, do que pelo fato de que significavam uma concentra\u00e7\u00e3o de poder extraordin\u00e1ria. Uma central nuclear significa que um senhor com um bot\u00e3o maneja a energia de 10 milh\u00f5es de pessoas. E essa era a base do movimento ecologista da \u00e9poca antinuclear, por essa concentra\u00e7\u00e3o de poder. Eram muito poucos e ningu\u00e9m lhes prestava aten\u00e7\u00e3o. Seguiram gritando, insistindo, e conseguiram nos convencer de que sua pr\u00e9dica era decisiva. E me parece muito bem.<\/span><b>\u00a0A grande diferen\u00e7a entre este problema ecol\u00f3gico e o problema da fome \u00e9 que conseguiram nos convencer de que o problema ambiental influi em todos. A fome acontece com outros que n\u00e3o vemos, <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">n\u00e3o sabemos bem quem s\u00e3o. \u00c0s vezes, geralmente, t\u00eam outra cor de pele, falam um idioma que n\u00e3o entendemos. Ent\u00e3o n\u00e3o conseguimos pensar que esse seja nosso problema. E \u00e9 certo, requer um salto de intelig\u00eancia um pouco maior pensar que \u00e9 nosso problema porque requer supor que nos d\u00e1 muita vergonha viver em um mundo que poderia alimentar a todos e, no entanto, deixa bilh\u00f5es de pessoas sem comer aquilo que necessitam.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Pode-se vincular tamb\u00e9m a fome \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica?<br \/>\n<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Hoje, est\u00e1 muito ligado a como estiver o meio ambiente no qual se possa produzir e que n\u00e3o se possa, mas o problema pelo qual esses milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o comem o suficiente n\u00e3o \u00e9 ambiental, \u00e9 de distribui\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o no sentido econ\u00f4mico, n\u00e3o no sentido log\u00edstico. Distribui\u00e7\u00e3o da riqueza. N\u00f3s produzimos comida suficiente. Existe um grande fato, provavelmente o maior fato hist\u00f3rico que a hist\u00f3ria n\u00e3o registra, que \u00e9 este: foi ao redor dos anos 70 do s\u00e9culo passado, quando pela primeira vez se sup\u00f5e que a humanidade p\u00f4de produzir alimentos para todos seus integrantes, coisa que n\u00e3o havia acontecido antes. Uma das raz\u00f5es da fome, at\u00e9 esse momento, era que n\u00e3o sab\u00edamos como produzir comida para todos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Logicamente, havia concentra\u00e7\u00e3o dessa riqueza alimentar. Desde sempre houve chefes e estados e coisas pelo estilo, mas al\u00e9m disso n\u00e3o era poss\u00edvel. N\u00e3o sab\u00edamos como produzir para todos. A meados do s\u00e9culo XX come\u00e7aram a ser encontradas t\u00e9cnicas que o permitiam e agora sabemos como faz\u00ea-lo e isso j\u00e1 funciona assim h\u00e1 50 anos. Digamos ent\u00e3o que possamos produzir comida, supostamente, para 12 bilh\u00f5es de pessoas sendo 8.000 e que, no entanto, n\u00e3o todos comem. Isto n\u00e3o \u00e9 efeito dos problemas ambientais, \u00e9 que se produz para que os pa\u00edses ricos hiper consumam e desperdicem. E para os demais, o que possam conseguir. N\u00e3o se pensa nisso quando se consomem alimentos, quando se produzem alimentos.<\/span><\/p>\n<p><b>O mercado est\u00e1 manipulado?<br \/>\n<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Poderia haver um mercado puro e que funcionasse segundo regras morais maravilhosas. Eu n\u00e3o creio que esteja manipulado, \u00e9 o que \u00e9 o mercado: uma estrutura na qual do que se trata \u00e9 de ganhar a maior quantidade de dinheiro poss\u00edvel por meio de todas as manobras que levem a esse fim. Ent\u00e3o, a manobra mais \u00f3bvia \u00e9 a que acabo de dizer: <\/span><b>os<\/b> <b>alimentos n\u00e3o s\u00e3o produzidos para aqueles que os necessitam, sen\u00e3o para aqueles que v\u00e3o pagar mais caro<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> e vai se tratar de que os paguem o mais caro poss\u00edvel. Para isso est\u00e3o estas bolsas de valores e todo o sistema mundial de comercializa\u00e7\u00e3o dos alimentos. Haveria de se encontrar uma maneira para que a produ\u00e7\u00e3o de alimentos n\u00e3o se regulasse pelo mercado, ser\u00e1 regulado pela necessidade daqueles que t\u00eam de comer, n\u00e3o?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><b>Isso me lembra do <\/b><b><i>dilema da vaca<\/i><\/b><b> que menciona em seu livro\u00a0<\/b><b><i>A fome<br \/>\n<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Sim, eu tratava de sintetizar isto no exemplo de uma vaca. Se um produtor produz dez quilos de trigo tem duas op\u00e7\u00f5es: uma seria vender-lhe um quilo a dez fam\u00edlias que v\u00e3o comer estes dias com esses gr\u00e3os. A outra seria vender os dez quilos, provavelmente mais caros, a um pecuarista ou a um intermedi\u00e1rio que o venderia a um pecuarista ou a dois intermedi\u00e1rios (os grandes capitais da alimenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o intermedi\u00e1rios, n\u00e3o produtores). Um pecuarista daria os dez quilos de trigo \u00e0 sua vaca e a vaca o transformaria em um quilo de carne. Esse \u00e9 o rateio: mais ou menos dez quilos de vegetal produzem um quilo de carne. E venderia esse quilo de carne, meio quilo a cada uma de duas fam\u00edlias, digamos, por muito mais dinheiro do que o que tinha ganho o agricultor com seus dez quilos de trigo. Os que podem comprar esse meio quilo de carne s\u00e3o uns poucos, enquanto os que necessitam o quilo de trigo s\u00e3o muit\u00edssimos, mas n\u00e3o o conseguem porque \u00e9 muito mais neg\u00f3cio vender ao pecuarista para que o transforme em carne, para que a venda a esses poucos que podem compr\u00e1-la.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>O que deveria ser feito para reduzir os n\u00fameros, o que pode se fazer?<br \/>\n<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Eu creio que a primeira e principal coisa n\u00e3o \u00e9 t\u00e9cnica sen\u00e3o chamemo-lo pol\u00edtica. Tem a ver com deixarmos de olhar para outro lado e que comecemos a pensar, como diz\u00edamos antes, \u00e0 maneira ecologista, que o <\/span><b>fato de que tanta gente n\u00e3o coma o suficiente tamb\u00e9m \u00e9 nosso problema,<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 problema deles, \u00e9 nosso e, portanto, dever\u00edamos come\u00e7ar a exigir da mesma forma que exigimos a limpeza da atmosfera. Dever\u00edamos come\u00e7ar a exigir que os governos que elegemos tenham presente que queremos que fa\u00e7am coisas para moderar a fome ou para faz\u00ea-la desaparecer, e que se n\u00e3o o fazem, bom, deixaremos de eleg\u00ea-los. Isso, pelo menos, na Europa ou em lugares onde existe a democracia. A democracia deveria poder funcionar. Por diz\u00ea-lo de outra maneira, <\/span><b>a primeira condi\u00e7\u00e3o para que deixe de haver ou se reduza muito a fome \u00e9 que nos importe.\u00a0<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Ent\u00e3o, se nos importa, encontraremos formas de atuar nessa dire\u00e7\u00e3o, j\u00e1 seja como diz\u00edamos agora, atrav\u00e9s dos pol\u00edticos ou formas mais diretas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Enquanto n\u00e3o nos importar, n\u00e3o h\u00e1 forma de que isto mude. Por que, quem o far\u00e1? A FAO costuma dizer que com 35.000 milh\u00f5es\u00a0de d\u00f3lares ao ano poderia solucionar a maior parte da fome no mundo, mas n\u00e3o h\u00e1 press\u00e3o para que os pa\u00edses que poderiam p\u00f4r esse dinheiro o ponham. Ent\u00e3o, como n\u00e3o a h\u00e1, bem, se re\u00fanem em Delhi e falam de outras coisas.<\/span><\/p>\n<p><b>A fome \u00e9 estrutural?<br \/>\n<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Fala-se muito de fome estrutural para dizer que \u00e9 uma fome absolutamente irrepar\u00e1vel. E vamos a N\u00edger e dizemo-nos, sim \u00e9 certo, isto \u00e9 irrepar\u00e1vel, porque vemos tudo \u00e1rido, pobre, sem nenhuma infraestrutura. E depois fica-se sabendo que N\u00edger \u00e9 o segundo produtor mundial de ur\u00e2nio, que \u00e9 um mineral bastante apreciado e bastante bem pago. S\u00f3 que todo esse dinheiro \u00e9 levado embora por uma empresa chinesa e uma empresa francesa. V\u00ea-se que neste \u00faltimo golpe de Estado ganharam os chineses porque est\u00e3o mandando embora os franceses. \u00c9 o que fazem, d\u00e3o-se golpes de Estado mutuamente para melhorar seu controle sobre as reservas de ur\u00e2nio atrav\u00e9s dos militares locais aos que compram. Todo esse dinheiro levado embora pelos chineses e os franceses, alcan\u00e7aria muito comodamente, para criar todas essas infraestruturas necess\u00e1rias para criar estradas, comprar m\u00e1quinas, fazer irriga\u00e7\u00e3o, construir dep\u00f3sitos\u2026 para tudo isso que necessitam para converter esse territ\u00f3rio, que n\u00e3o chega a produzir o que seus habitantes necessitam para comer, em um que sim. Mas claro, n\u00e3o, por que o far\u00e3o? Por que os chineses ou os franceses n\u00e3o tiveram um ataque de caridade crist\u00e3 ou confuciana? N\u00e3o. E ent\u00e3o a gente diz claramente, sim \u00e9 certo que \u00e9 uma fome estrutural. Mas a estrutura da que depende n\u00e3o \u00e9 a estrutura interna do pa\u00eds, \u00e9 a estrutura da economia mundial que faz com que estes agentes estrangeiros possam levar embora o que esse pa\u00eds necessita para se reconstruir.<\/span><\/p>\n<p><b>A fome n\u00e3o \u00e9 consequ\u00eancia direta da pobreza\u2026<br \/>\n<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Em \u00faltima inst\u00e2ncia<\/span><b> a causa principal da fome n\u00e3o \u00e9 a pobreza, sen\u00e3o a riqueza.<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00c9 a riqueza de certos setores, de certos pa\u00edses como mestres que criam essa acumula\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o alimentar de forma tal que h\u00e1 quem n\u00e3o chega a aceder a ela. Se n\u00e3o existisse essa desigualdade econ\u00f4mica n\u00e3o se produziria para mercados que pagam cinco vezes a mais, sen\u00e3o simplesmente para vender ao seu vizinho ou a quem puder. Aos que necessitam. Por isso digo que a causa principal \u00e9 a riqueza, que por sua vez, obviamente, \u00e9 a que cria essa pobreza que \u00e9 a que faz que n\u00e3o se possa comprar o necess\u00e1rio para comer.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><b>A pandemia fez com que a situa\u00e7\u00e3o piorasse?<br \/>\n<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">Sei que \u00e9 muito estranho. Eu n\u00e3o sei. Fiquei impressionado com a rapidez com a qual tratamos de voltar \u00e0 normalidade anterior. A pandemia nos oferecia infinidade de est\u00edmulos para repensar coisas. Parecia que sim. Por isso pusemo-nos a imaginar como isto ia nos mudar, n\u00e3o? Mas n\u00e3o aconteceu nada. Se, por acaso o que acontece em alguns casos por estas situa\u00e7\u00f5es um pouco extremas, muita gente se entrega a l\u00edderes entre delirantes e meio fascistas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><b>A revolu\u00e7\u00e3o dos famintos?<br \/>\n<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o sei. Sucedeu obviamente, ao longo da hist\u00f3ria. A mais famosa de todas, a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, est\u00e1 representada por essa frase de Mar\u00eda Antonieta, \u201cse n\u00e3o h\u00e1 p\u00e3o que comam brioches\u201d. Havia uma carestia alimentar fort\u00edssima que foi a que iniciou a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Eu n\u00e3o creio que agora isto seja um caso t\u00e3o poss\u00edvel. Por qu\u00ea? Os que realmente t\u00eam fome est\u00e3o t\u00e3o fragilizados que, bem, n\u00e3o conseguem imaginar um horizonte que n\u00e3o seja o de comer amanh\u00e3 e depois de amanh\u00e3. Para fazer uma revolu\u00e7\u00e3o h\u00e1 de se imaginar um horizonte, h\u00e1 de se imaginar um futuro que possa ser diferente. E isso \u00e9 o que falta. Quando a gente est\u00e1 mal alimentado toda sua vida, quando n\u00e3o h\u00e1 op\u00e7\u00f5es \u00e0 vista, quando n\u00e3o h\u00e1 quem as proponha\u2026<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Quando os franceses sa\u00edram \u00e0 rua, j\u00e1 tinha havido quase 100 anos de gente que dizia que n\u00e3o podia ser que houvesse um rei absoluto e que a igualdade&#8230; E muito antes de 4 de agosto do 89 disseram que os privil\u00e9gios feudais tinham de acabar. Que tinham de lhes dar comida r\u00e1pido, mas al\u00e9m disso, tinham a ideia de que os privil\u00e9gios eram insustent\u00e1veis e essa ideia tinha sido constru\u00edda durante muito tempo.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">As poucas revolu\u00e7\u00f5es que houve nas \u00faltimas d\u00e9cadas n\u00e3o tiveram nada a ver com a fome, sen\u00e3o com situa\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que irromperam de algum modo ou outro. Continuo tendo essa esperan\u00e7a. N\u00e3o tenho d\u00favida de que todos os ordenamentos sociais, em algum momento, se acabam e mudam. O problema \u00e9 que essas mudan\u00e7as necessitam algum tipo de ideia pr\u00e9via de programa de horizonte e que esses, chamemo-los programas, n\u00e3o se constroem em um instante.<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Estamos em um momento em que n\u00e3o sabemos como gostar\u00edamos que fosse nosso futuro. Se o futuro n\u00e3o \u00e9 promessa, \u00e9 amea\u00e7a.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><b>Como podem ser feitas pol\u00edticas contra a fome?<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"><br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Com respeito \u00e0 fome, n\u00e3o h\u00e1 um problema t\u00e9cnico, \u00e9 um problema pol\u00edtico e econ\u00f4mico. \u00c9 querer faz\u00ea-lo e ter a for\u00e7a pol\u00edtica, construir a for\u00e7a pol\u00edtica suficiente para faz\u00ea-lo. \u00c9 que nos importe. \u00c9 poss\u00edvel realizar esse tipo de coes\u00e3o na Am\u00e9rica Latina desde o ponto de vista pol\u00edtico como para acabar com esse problema grav\u00edssimo da regi\u00e3o, que \u00e9 que tantos milh\u00f5es de pessoas que produzem, ainda que n\u00e3o produzam diretamente, passem fome.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre a mesa um mate e um pratinho com queijo e uvas que s\u00e3o uma tenta\u00e7\u00e3o para Tita, a 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